Era tempo de podar as primaveras.
     Bia e Zé estavam na entrada do sítio ocupados com a poda. Primaveras de várias cores ladeavam o caminho de entrada.
     Perto dali havia um novo loteamento. Os novos moradores já estavam se instalando. Houve um trabalho árduo para que as velhas árvores e um pequeno bosque não fossem derrubados. Bia se empenhou tanto que conseguiu que suas idéias fossem respeitadas. Movimentou tanta gente, que os envolvidos já estavam quase acreditando que ela era mesmo ”uma bruxa”. Mas valeu a pena. Bia não se importava que a chamassem de “bruxa”. Isso se devia aos conhecimentos que ela possuía a respeito das plantas medicinais que cultivava e aos seus conselhos que sempre se confirmavam como certos.
     Zé assobiava alegremente.
     Nisso para um carro. O motorista queria saber se estava no caminho certo para o tal loteamento.
     Depois de observar tudo em volta, ele pergunta:
     — Como são as pessoas que moram aqui?
     — Como eram as pessoas lá onde você morava? Perguntou Bia, em resposta.
     — Ah! Lá vivia um pessoal desconfiado, desonesto, aproveitador.
     — As pessoas daqui também são assim!
     Pensativo, o homem agradeceu e partiu.
     Mais tarde, quando Bia e Zé estavam amontoando galhos, parou um caminhão com uma mudança. Uma mulher sorridente se aproximou e perguntou qual o caminho para o novo loteamento.

 



     Agradeceu a informação e ia saindo, porém voltou-se e indagou:
     — Como são as pessoas deste lugar?
     Bia novamente respondeu com uma pergunta:
     — Como eram as pessoas onde você vivia?
     — Ah! Eram pessoas boas, bem humoradas, trabalhadoras.
     — As pessoas daqui também são assim.
     Depois que eles se foram, Zé, intrigado, perguntou:
     — Dona Bia, porque a senhora respondeu para o homem que as pessoas eram desconfiadas, desonestas e aproveitadoras e, para a mulher, que as pessoas eram boas, bem humoradas e trabalhadoras?
     — Vamos terminar isso que eu explico.
     Aproveitaram para colher frutas e comer algumas. Descansando debaixo das árvores, Bia então explicou:
     — Isso não tem mistério algum! Cada um vê no outro seus próprios defeitos e qualidades, como em um espelho. O homem via seus semelhantes como desconfiados, desonestos, aproveitadores porque é a maneira que ele reconhece as coisas. E vai ver os moradores daqui do mesmo jeito. A mulher via seus conterrâneos como bons, bem humorados, trabalhadores. Verá os daqui assim também. O que vemos nos outros é o espelho de nós mesmos!
     — Tem razão, respondeu Zé, pensativo...

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