No último sábado, Domingos havia encomendado mudas de hortelã e capim cidreira. Viria buscar nesta terça-feira. Bia havia separado os saquinhos pretos com as mudas e pediu a Zé que colocasse no carrinho e levasse até a frente da casa.
     Domingos e Vera, sua mulher, chegaram muito tristes. Tiveram um aborrecimento no caminho: viram dois meninos judiando de um gato. Pararam o carro e foram até eles.
     — Parem com isso! O que vocês estão fazendo! – perguntou Vera. Vocês acham que gato não sente dor?
     — Parem com isso! – apela Domingos. Pensem só que um dia , uma ação como essa pode retornar a vocês. Um dia, quando vocês tiverem algum machucado, vão sentir dor, e vão se lembrar da dor que causaram ao gato que vocês estão maltratando.
     Os meninos soltaram o animal e ficaram um instante parados, olhando para eles. Depois correram por uma trilha que os fez sumir.
     Domingos, depois de cumprimentar Bia, disse:
     — Sempre pensei que pessoas que moram no campo seriam todas como você, Bia. Pessoas que amam animais e plantas. Acabamos de ver dois meninos judiando de um gato na estrada, acredita?
     — Hoje não é mais assim. Depois que surgiram esses movimentos pela posse da terra, muitas pessoas, que não têm nada a ver com a vida no campo querem a terra só para depois vendê-la. As crianças acompanham as idéias dos pais. Às vezes até vão para a escola, mas não recebem educação que os façam amar as plantas e os animais.
     Ficaram um momento em silêncio, pensativos, sentados na varanda, tomando água gelada de uma jarra na qual Bia havia colocado folhas de hortelã e gelo. Apreciaram muito a bebida refrescante.

 

 

     — Bia... – pediu Vera – explique novamente como acontece o retorno de nossas ações – pensando nos meninos maus.
     — Pois é, tudo retorna a nós, sejam coisas boas ou más. Não importa quanto tempo leve. É por isso que aparentemente não entendemos porque algumas pessoas vivem uma vida leve, enquanto para outras, que parecem ser boas, acontecem muitas coisas ruins.
     Pensou um pouco e continuou:
     — Tudo depende de como você plantou no passado. Recebemos de volta o que plantamos nas nossas ações. É o dar e o receber, a lei da reciprocidade.
     Vera sorri e diz:
     — Assim é. Nós nos envolvemos com a lida cotidiana e acabamos esquecendo de reparar o que fazemos ao longo do dia, quais são nossas atitudes mais banais.
     — Precisamos fazer pausas ao longo do dia para não esquecer, comenta Bia, devolvendo o sorriso.
     Domingos olha as horas no celular e diz:
     — Hoje precisamos ir antes que escureça, para termos tempo de replantar as mudas. Mas vamos voltar num outro dia para conversar.
     Colocaram as mudas no carro e se foram.
     Bia ficou pensando em como havia pessoas de todos os tipos no mundo. E quantas ainda haveriam de sofrer pela ação de retorno dos seus atos cometidos. Porém, havia pessoas boas que enchiam seu coração de alegria e esperança.

 

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